A Máquina do Mundo dos meus olhos
Não mais caminhava como Dante ou Drummond,
a estrada outrora pedregosa,
hoje tomada pelo asfalto quente,
entrelaça e enche de bolhas meus pés de sonhador.
Continuo pelo caminho incerto do questionar,
mas quem se move agora já não é vivo,
são as rodas do avião que impulsionam o voar
enquanto destrincho desejos tão podres do meu olhar.
Se como Fabiano, sou bicho ou homem,
da alma de Baleia passo a me alimentar
uma cachorra astuta que ensina mais que o sinhô,
um animal pacato com mais atitude que um pensador.
Andar e pensar e pensar em andar,
deparo-me com as dúvidas que me vestem
roupa tão dourada quanto a da Virgem Maria
mas o brilho de meu traje é trágico.
Gritos e lágrimas compõem meu figurino,
me visto de farsas e hipocrisias,
imito a face de quem faz-se
pela agonia do não saber.
Se sei, ignoro, mais tarde sou intruso
e o que posso aprender eu destruo
depois me arrependo e fico mudo,
mas sabe Deus o que pode me ensurdecer.
Quando criança eu tinha resposta para tudo,
hoje o eco ecoa no vazio do meu pensar,
penso e não concluo,
estou oco, louco, em surto.
A idade avançada me abraça
e hoje já é o passado do amanhã,
passado o dia de hoje o sol não mais verei
e senti-lo tocar minha pele é privilégio que não terei.
Mas olho ao céu e vejo um reflexo
hoje é o céu quem reflete e não mais o mar,
teria o mundo dado uma volta
ou teria eu delirado em voltar?
Eis que surge a grande heroína
que me devaneia dentro do suor frio
ouço música alta, sinto o sabor da bebida,
ela me apresenta a libido, o prazer de que me privei.
As chances de cometer os erros que omiti
a pena das crianças que não pude conviver
a rebeldia adolescente de que me proibiram
a vida adulta que me impediu de existir.
Seria ela? A Máquina do Mundo?
Mas o mundo de que é feito?
Se de tempo a vida é composta,
poderia eu andar de costas?
Mas a Máquina se abriu sem que eu pudesse escolher
de repente, dentro dela, voltei ao tempo
mas já não era a mesma coisa
não havia mais mistério.
A infância era previsível,
a rebeldia era curável,
eu já havia deixado de existir
eu já havia matado o fogo em mim.
A Máquina pegou em minha mão
mostrou-me o arrependimento,
mas voltar não era a solução
a morte era meu melhor momento.
Deixei as questões de lado
assumi a carapuça da minha vida
dei o último sorriso e abracei a senhora da capa
deixei a Máquina partir sem memória.
Lucas Araujo


